terça-feira, 15 de maio de 2012

"O Adamastor" d'Os Lusíadas


Passaram-se cinco dias de navegação calma quando, de repente, numa noite, uma nuvem escura nos aparece. Vinha tão carregada que ficámos cheios de medo. Tanto que pedi ajuda a Deus. Mal começara a rezar, quando se nos apresenta aos nossos olhos uma figura enorme, gigantesca e horrenda. Tinha o rosto carregado, a barba esquálida, os olhos encovados, a cor terrena e pálida; toda a postura era medonha e má. Tinha os cabelos cheios de terra e crespos; os dentes eram amarelos e a boca negra. Além disso, falou-nos em tom de voz horrendo e grosso/que pareceu sair do mar profundo. Por isso ficámos, eu e todos, arrepiados. E disse em tom irado:
- Ó gente ousada, já que, ultrapassando os limites proibidos, ousas navegar nos meus mares, que nunca foram sulcados por nenhum humano, e vens ver os segredos escondidos da natureza e do mar, o que é vedado aos humanos, ouve os castigos que reservo para o vosso atrevimento. Sabe que, daqui para a frente, todas as naus que fizerem esta viagem me terão como inimigo e eu farei com que haja naufrágios, perdições de toda a sorte/que o menor mal de todos seja a morte.
         Será o caso de Bartolomeu Dias, que foi quem me descobriu e em quem me vingarei. O mesmo vai suceder a Dom Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia, que aqui morrerá, no seu regresso à pátria. E será o caso de Manuel de Sousa Sepúlveda, que naufragará por estes sítios, com sua mulher amantíssima e com os filhos. Antes de morrerem abraçados, verão morrer com grande sofrimento os seus filhos, gerados de tanto amor, e serão sujeitos a maus tratos pelos negros indígenas.
Mais ia a dizer o monstro horrendo, quando, de pé, o interpelei, perguntando, sem mostrar receio:
- Quem és tu? Que esse estupendo corpo, certo me tem maravilhado!
E então algo de estranho se passou. Dando um espantoso e grande brado, respondeu-me, com voz amarga, como se a pergunta o tivesse magoado:
- Eu sou o Cabo que vós chamais de Tormentório ou das Tormentas, desconhecido dos grandes geógrafos antigos. Aqui termino toda a costa africana.
Fui um dos gigantes que defrontaram os deuses do Olimpo, em guerra sangrenta. O meu nome é Adamastor e coube-me, como missão, defrontar Neptuno. No entanto, apaixonei-me por Tétis, a princesa das águas, e por ela desprezei todas as restantes deusas. Aconteceu um dia em que a vi nua na praia, acompanhada das Nereidas. A partir daí senti-me irremediavelmente preso.
Tendo consciência de que seria difícil alcançá-la, dado que sou muito feio, decidi tomá-la pela força das armas e fiz saber isto a Dóris, sua mãe, para que ela pudesse convencê-la a aceitar-me. Dóris foi então falar com ela e ela respondeu-lhe: - Qual será o amor bastante de ninfa que sustente o de um gigante? No entanto, eu vou encontrar uma maneira de evitar a guerra, sem ficar prejudicada ou desonrada.
Fiquei convencido e, ingenuamente, desisti da guerra. Numa noite prometida por Dóris, apareceu-me o gesto lindo da branca Tétis, única, despida. Corro como louco para ela, procurando abraçar aquela que era a vida deste corpo e beijando-lhe as faces e os cabelos.
Mas, e nem sei como contá-lo, achei-me abraçado, não à minha amada, mas a um duro monte, frente a um penedo, e eu próprio transformado em penedo! Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano, /já que minha presença não te agrada, / que te custava ter-me neste engano, /ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
Por esta altura já todos os meus irmãos tinham sido vencidos e transformados em montes e também eu comecei a sentir que me transformava neste Cabo. Mas o que mais me dói ainda é que, por mais dobradas mágoas, /me anda Tétis cercando destas águas.
Assim contava o Gigante e, chorando, afastou-se de nós. Eu então fiz uma prece a Deus, pedindo-lhe que as profecias do Adamastor se não viessem a verificar.

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